talvez um voltasse, talvez o outro fosse. talvez um viajasse, talvez outro fugisse. talvez trocassem cartas, telefonemas nocturnos, dominicais, cristais e contas por sedex, que ambos eram meio bruxos, meio ciganos, assim meio babalaôs. talvez ficassem curados, ao mesmo tempo ou não. talvez algum partisse, outro ficasse. talvez um perdesse peso, o outro ficasse cego. talvez não se vissem nunca mais, com olhos daqui pelo menos, talvez enlouquecessem de amor e mudassem para a cidade um do outro, ou viajassem juntos para Paris, por exemplo, Praga, Pittsburg ou Creta. talvez um se matasse, o outro negativasse. sequestrados por um OVNI, mortos por uma bala perdida, quem sabe. talvez tudo, talvez nada. porque era cedo demais e nunca tarde. era recém no ínicio da não-morte dos dois.


Caio Fernando Abreu
Caio 3D - o essencial da década de 1990

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